Carnaval, resistência e povo: a trajetória de Lula como símbolo da história do Brasil
O Carnaval brasileiro sempre foi muito mais do que festa, fantasia e alegria. Ele é, historicamente, um espaço de disputa simbólica, expressão política, memória coletiva e território de resistência do povo negro, trabalhador e periférico. Desde suas origens, o samba e as escolas de samba surgiram como manifestações populares que enfrentaram a criminalização, o racismo estrutural e a marginalização cultural impostas pelas elites conservadoras. Ao ocupar as ruas, os terreiros e, mais tarde, a avenida, o povo transformou o Carnaval em um poderoso instrumento de afirmação de identidade, denúncia das desigualdades sociais e celebração da luta coletiva.
Ao longo das décadas, as escolas de samba se consolidaram como verdadeiras narradoras da história do Brasil. Seus enredos revisitam o passado sob a ótica dos que foram silenciados: o povo escravizado, os trabalhadores e trabalhadoras, as mulheres, os negros e negras, os povos indígenas e os moradores das periferias urbanas. O Carnaval passou a ser também um espaço de pedagogia popular, onde a memória histórica é reconstruída a partir do olhar do povo. É nesse chão cultural, político e popular que se insere a homenagem à trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja vida se confunde profundamente com a história da maioria do povo brasileiro.
Lula nasceu no agreste brasileiro, região marcada pela seca, pela pobreza e pela ausência do Estado. Ainda criança, enfrentou a fome, a insegurança e a dureza de uma vida sem direitos garantidos. Migrou com sua família em busca de sobrevivência, como milhões de nordestinos e nordestinas que, ao longo do século XX, foram obrigados a deixar sua terra natal para tentar construir uma vida digna nos grandes centros urbanos. Essa trajetória não é exceção: ela é a regra de um país profundamente desigual, onde a mobilidade social sempre foi negada à maioria.
Tornou-se operário metalúrgico e conheceu de perto a exploração do trabalho, os baixos salários, a repressão patronal e a violência contra a organização sindical. Foi na luta coletiva, na construção da consciência de classe e na organização dos trabalhadores que Lula encontrou o caminho da política. Sua liderança emergiu do chão da fábrica, das greves históricas do ABC paulista e da mobilização popular, consolidando-se como uma das maiores expressões da luta dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil.
A chegada de Lula à Presidência da República não representou apenas a vitória de um indivíduo, mas a afirmação simbólica de que o povo trabalhador pode ocupar os espaços de poder historicamente reservados às elites. Seus governos são marcados pela ampliação de políticas públicas, pelo combate estrutural à fome, pela valorização do salário mínimo, pela expansão do acesso à educação, pelo fortalecimento de programas sociais e pela inclusão de milhões de brasileiros e brasileiras no orçamento e na cidadania. Ao mesmo tempo, sua trajetória sempre esteve sob ataque de setores conservadores, das elites econômicas e de forças políticas que resistem a qualquer projeto de inclusão social, redistribuição de renda e justiça.
Ao transformar essa história em enredo, o Carnaval reafirma seu papel como instrumento de afirmação popular e política. O samba, com sua força ancestral, ecoa a voz do povo trabalhador, denunciando o racismo em todas as suas dimensões, a desigualdade social e as tentativas constantes de silenciar a cultura popular, a diversidade e a organização coletiva. A avenida não é apenas espetáculo; ela é território político, onde memória, luta, dor, resistência e esperança desfilam juntas diante do país e do mundo.
Mais do que uma homenagem a um presidente, os enredos que celebram Lula exaltam a resistência de um povo que nunca deixou de lutar. Celebrar Lula no Carnaval é celebrar a capacidade do povo brasileiro de se organizar, resistir e transformar a própria realidade, mesmo diante das adversidades históricas. É reconhecer que as conquistas sociais não caem do céu: são fruto da luta coletiva, da mobilização popular e do enfrentamento permanente às estruturas conservadoras e excludentes.
Não por acaso, Lula é o presidente brasileiro com mais sambas-enredo na história do Carnaval. Além da Acadêmicos de Niterói, outras escolas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte já homenagearam sua trajetória e, junto com ela, a luta do povo brasileiro. (360, pp. 360, P. (s.d.). https://www.poder360.com.br/poder-cultura/carnaval-ja-mostrou-presidentes-mas-so-lula-virou-enredo-durante-mandato/.)
Em 2003, a Beija-Flor de Nilópolis levou à Marquês de Sapucaí o enredo “O povo conta a sua história: saco vazio não para em pé, a mão que faz a guerra, faz a paz”, denunciando a fome, a miséria e as profundas desigualdades sociais que marcam o Brasil.
Em 2012, a Gaviões da Fiel apresentou o enredo “Verás que o Filho Fiel Não Foge à Luta – Lula, o Retrato de uma Nação”, reafirmando a força da luta popular e a identidade entre a história do presidente e a história do povo brasileiro.
Já em 2023, a Cidade Jardim, a escola de samba mais antiga de Belo Horizonte, homenageou Lula com o desfile “Sem medo de ser feliz”, retomando um dos lemas mais marcantes da luta democrática e popular no país.
Ao ocupar o Carnaval com esses enredos, reafirma-se que a cultura popular segue viva, insurgente e profundamente comprometida com a construção de um Brasil mais justo, democrático e solidário. O samba, mais uma vez, cumpre seu papel histórico: contar a história do povo a partir do povo, com coragem, verdade e esperança.
Porque onde há samba, há memória; onde há memória, há identidade. Onde há povo organizado, há resistência; e, onde há resistência, o Brasil segue em movimento, lutando por dignidade, justiça social e democracia.
Texto: Maria de Jesus (Claudinha Lima), Secretaria Nacional de Nucleação do PT.